Atualize seu navegador!
Síndrome de Down

SINDROME DE DOWN

Síndrome de Down ou Trissomia do cromossoma 21 é um distúrbio genético causado pela presença de um cromossomo 21 extra total ou parcialmente.

Recebe o nome em homenagem a John Langdon Down, médico britânico que descreveu a síndrome em 1862. A sua causa genética foi descoberta em 1958 pelo professor Jérôme Lejeune, que descobriu uma cópia extra do cromossoma 21. A síndrome é caracterizada por uma combinação de diferenças maiores e menores na estrutura corporal. Geralmente a síndrome de Down está associada a algumas dificuldades de habilidade cognitiva e desenvolvimento físico, assim como de aparência facial. A síndrome de Down é geralmente identificada no nascimento.

Pessoas com síndrome de Down podem ter uma habilidade cognitiva abaixo da média, geralmente variando de retardo mental leve a moderado. Um pequeno número de afetados possui retardo mental profundo. É o distúrbio genético mais comum, estimado em 1 a cada 800 ou 1000 nascimentos.

Muitas das características comuns da síndrome de Down também estão presentes em pessoas com um padrão cromossômico normal. Elas incluem a prega palmar transversa (uma única prega na palma da mão, em vez de duas), olhos com formas diferenciadas devido às pregas nas pálpebras, membros pequenos, tônus muscular pobre e língua protrusa. Os afetados pela síndrome de Down possuem maior risco de sofrer defeitos cardíacos congênitos, doença do refluxo gastroesofágico, otites recorrentes, apneia de sono obstrutiva e disfunções da glândula tireóide.

A síndrome de Down é um evento genético natural e universal, estando presente em todas as raças e classes sociais.

As crianças com síndrome de Down apresentam deficiência primária devido à trissomia no cromossomo 21, mas como qualquer ser humano tem a plasticidade do sistema psico-neurológico. A plasticidade do sistema psico-neurológico é à capacidade adaptativa do sistema nervoso central em promover habilidades para modificar, adequar sua organização estrutural e funcional de acordo com as particularidades de cada pessoa. Nesse sentido, essa organização cerebral é influenciada diretamente pelas interações decorrentes das relações captadas externamente, devido à plasticidade envolver estimulação de receptores através de neurotransmissores, e os locais de contato entre componentes dos neurônios, conexões sinápticas, relacionados aos axônios e os dendritos agem como mediadores entre a plasticidade sináptica – a base do aprendizado, da memória e da inteligência,em que as ligações entre os neurônios são reordenadas a cada nova experiência. Quando há alguma alteração estrutural decorrente de uma deficiência adquirida biologicamente ou ao longo do percurso da vida, essa organização estrutural do sistema nervoso central age no sentido de transformar e superar tal alteração (Silva e Kleinhans, 2006).Se os professores tivessem essa compreensão sobre o funcionamento neurológico possibilitariam as crianças com síndrome de Down um ambiente de interação social e, consequentemente, a possibilidade de aprendizagem e desenvolvimento das mesmas dentro da sala de aula.

É perceptível que as crianças com síndrome de Down apresentam um desenvolvimento físico e intelectual um pouco mais lento, quando comparado às crianças comuns. No entanto, a maneira como é exercitado o funcionamento psicológico, e a forma como são apresentados os estímulos determinam o resultado cognitivo da criança.

Dentre as características de quem nasce com síndrome de Down, destaca-se a demora para o início da verbalização das palavras. Esse atraso comumente é mal interpretado levando à concepção de que não há compreensão e raciocínio da criança quando não há resposta imediata. Contudo, a etapa inicial de avanço da linguagem infantil, de acordo com Vygotsky e colaboradores (1998) e Vygotsky (2001), não apresenta nenhuma relação com o desenvolvimento do pensamento. Embora, em determinado momento do desenvolvimento infantil as linhas da linguagem e do pensamento se interceptem e mudem completamente, tanto o pensamento quanto a linguagem, mesmo após essa intercepção inicial, continuam a traçar linhas de desenvolvimento diferentes. Embora, por várias vezes, durante o desenvolvimento da pessoa, essas linhas se cruzem e se separem, ocasionando mudanças qualitativas e quantitativas para o desenvolvimento psíquico (Vygotsky, 2001).

Sendo assim, a interação entre pensamento e linguagem até traduzir-se em palavra percorre aspectos distintos, pois, tratando-se da linguagem, há aspectos internos considerados como significante ou semântico, e aspectos externos denominados de fonética, tendo cada um, movimentos específicos . A criança, ao iniciar a fala exterior denominada de fonética, parte do uso de uma única palavra, mas posteriormente passa a adicionar outros termos entre si, iniciando pelas frases simples para depois alcançar as mais complexas (Vygotsky, 2001).

Concernente ao significado, a primeira palavra corresponde a uma totalidade, ou seja, uma frase completa. Semanticamente, significa dizer que a criança parte de um complicado entendimento, interpretação, compreensão de termos, para depois começar a dominar as unidades semânticas separadas, isto é, a partir do significado das palavras subdivide seu pensamento inicialmente indiferenciado. Logo, as enunciações verbais não começam a surgir totalmente concluídas, desenvolvendo-se gradativamente, ou seja, iniciam no plano do significado de uma palavra e compreensão da mesma e então passam a ser expressas (Vygotsky, 2001). Isso significa dizer que o plano semântico da linguagem (linguagem receptiva) é bem mais complexo de se construir em relação ao plano fonético (linguagem expressiva).

Nesse sentido, é importante destacar que as crianças com síndrome de Down compreendem as unidades semânticas da palavra, da mesma forma que uma criança comum, desde que receba as informações de forma adequada fazendo a relação constante entre a memória visual e auditiva. Pois, se o professor não se dirige a criança com síndrome de Down pelo canal adequado, não haverá compreensão por parte da mesma. O que diferencia as crianças com síndrome de Down das crianças comuns é quanto ao início da fala exterior (fonética), pois as primeiras apresentam hipotonia muscular, baixa atenção, deficiência na memória auditiva e de curto prazo. Por outro lado, apresentam uma boa memória visual que associada a memória auditiva pode conduzir a compreensão do ambiente a sua volta e possibilitar o seu desenvolvimento e aprendizagem. Devido ao desconhecimento da maioria dos professores as informações são repassadas através da memória auditiva e isso impossibilita que a criança tenha acesso ao conhecimento. Isso tudo conduz à demora na internalização dos conceitos para depois se verbalizar. Entretanto, é importante destacar que, embora haja a deficiência decorrente da síndrome, é possível ocorrer o desenvolvimento linguístico da criança com síndrome de Down.

Dessa forma, é importante compreender que, por trás do plano semântico, há o discurso interior, que é bastante significativo para o entendimento entre o pensamento e a palavra. Conforme Vygotsky (2001), o discurso interior é uma discussão, elaboração de conceitos, particular da própria pessoa, enquanto que o discurso externo é uma conversação para outras pessoas. Logo, o discurso interior volta-se para o pensamento e posteriormente torna-se exterior. Nesse sentido, o discurso egocêntrico é uma fase de desenvolvimento que precede o discurso interior, e ocorre com as crianças em fase pré-escolar (Vygotsky, 2001). Trata-se de um fenômeno de transição da atividade social e coletiva da criança para a sua atividade mais individualizada.

A função do discurso egocêntrico é a mesma do discurso interior, não se limitando a acompanhar a atividade da criança, já que se trata da compreensão consciente, onde tal criança busca vencer dificuldades usando um discurso de si para si, onde se encontra íntima e utilitariamente relacionada com o seu pensamento (Vygotsky, 2001).

Assim, o declínio da vocalização do discurso egocêntrico é sinal de que a criança vai com sucesso separando mentalmente um ou mais elementos de uma totalidade complexa do som, adquirindo uma nova capacidade de formar ou combinar idéias através do pensamento em vez de pronunciá-las (Vygotsky, 2001).

Dessa maneira, o discurso interior é uma função autônoma da linguagem, um plano distinto do pensamento verbal, ou seja, as palavras passam a ser pensadas, sem que necessariamente sejam pronunciadas. É certo que a transição do discurso interior para o discurso externo não é um simples processo de converter uma linguagem em outra. É por outro lado, um processo complexo e dinâmico que envolve a transformação da estrutura predicativa, própria do discurso interior, em discurso lógico articulado, em que o receptor compreende bem o que lhe é transmitido. Assim, percebe-se que as palavras são mediadoras entre pensamento e mundo externo (Vygotsky, 2001).

Vygotsky (2001) mostra que pensamente não é paralelo à linguagem, pois cada um possui uma função específica, embora em determinado momento do desenvolvimento infantil, relacionado à linguagem racional e ao pensamento verbal, tracem laços. Para Vygotsky (2003) a linguagem é o meio através do qual a reflexão e o planejamento das ações acontecem – um processo pessoal carregado de traços sociais. A fala, pois, faz parte dos processos psicológicos superiores, que são desenvolvidos através de processos de interação.

 De acordo com Albuquerque e colaboradores (2009), a memória é uma das funções cerebrais importantes para a construção do aprendizado. Desse modo, na criança com síndrome de Down, a deficiência que afeta a memória de curto prazo está mais acentuada na memória verbal (alça fonológica) por se tratar de uma dificuldade quanto à retenção de instruções faladas, em relação à visual (rascunho visuoespacial), que praticamente não é afetada. Logo, durante o ensino-aprendizagem, tornase relevante considerar a deficiência da criança, pois dificulta a permanência de sua atenção em uma atividade por um longo período de tempo, gerando dificuldade em armazenar muitas informações faladas. Daí a importância da utilização de variados instrumentos pedagógicos que reforcem a dinâmica da aula e estejam voltados para a memória visual da criança, visto ser uma potencialidade a ser explorada. Embora haja a deficiência, é importante compreender que os ambientes social e educacional influenciam no desenvolvimento cognitivo, sócioafetivo, na linguagem expressiva e na autonomia da criança com síndrome de Down. Assim, a concepção do professor sobre linguagem, desenvolvimento, interação, quando adotada de forma distorcida e/ou fragmentada, carente, reflete diretamente na qualidade do processo ensino-aprendizagem proposto ao aluno com síndrome de Down.